O sertão virou música
Por Juarez Fonseca
No centenário de seu nascimento, Guimarães Rosa ganha uma tradução musical. O autor da ousadia é o grupo Nhambuzim em seu disco de estréia, Rosário. Uma das boas surpresas de 2008, o álbum justifica o adjetivo de ousado pela coragem em apoiar-se uma das obras mais singulares da literatura brasileira. A surpresa está no fato de que a coragem é recompensada pelo resultado, pode-se dizer, brilhante. Desde que foi criado, em 2002, o grupo mergulhou na pesquisa do universo roseano lendo e relendo seus livros e chegando ao ponto de familiarizar-se com os cenários reais das histórias em várias visitas à região de Cordisburgo, cidadezinha natal do escritor, no sertão de Minas Gerais. Tendo como marcas belos arranjos vocais e harmoniosa combinação de instrumentos como viola caipira, piano e berrante, a música do Nhambuzim alcança com felicidade a dimensão da obra de Guimarães Rosa, ao mesmo tempo profundamente regional e universal.
Enquanto ouvia, fiquei pensando que, fora de Minas Gerais, um grupo assim só poderia existir mesmo em São Paulo, a cidade culturalmente mais democrática do país. Um de seus criadores, Edson Penha, geógrafo e professor da USP, é de Dracena, município paulista na fronteira com Mato Grosso do Sul. “Vivo na cidade de São Paulo desde os 12 anos mas nunca perdi aquele viés do interior”, conta. “Não sou paulistano, sou caipira.” Além de vocalista e tocador de berrante, Edson divide as composições do Nhambuzim com o paulistano Xavier Bartaburu, jornalista profissional. Também são da capital Joel Teixeira (voz, violão, viola), Itamar Pereira (baixo) e André Oliveira (percussão). O percussionista Rafael Mota é cearense e a cantora (voz linda) Sarah Abreu, ex-integrante do Coral da USP, é a única mineira. “Você pode estar no caos de São Paulo e ver-se mergulhado no puro sertão”, diz Xavier. “Guimarães fala de dois sertões, o real e o metafísico”.
As 17 músicas do disco partem de ritmos tradicionais mineiros e são inspiradas em contos dos livros Primeiras Estórias, Sagarana e Tutaméia, na novela Manuelzão e Miguilim e no romance Grande Sertão: Veredas. Fica estranho destacar uma ou outra faixa, na medida em que todas são parte desta, digamos, ópera sertaneja. Mas há as que chegam mais envolventes ao ouvido, como a tensa Acerto de Contas, a lírica Arvorecer e a melancólica Canoeiros, só rumor de água, vocais, percussão e o misterioso (não é bem isso, mas me falta outra palavra) som do berrante. Duas canções não foram criadas pelo grupo: A Terceira Margem do Rio, de Milton Nascimento e Caetano Veloso, e Sagarana, de João de Aquino e Paulo César Pinheiro (gravada originalmente por Clara Nunes). Esta tem um convidado especial, o violeiro Paulo Freire. Outro convidado, na canção Um Miguilim, é o cantor Renato Braz. O Nhambuzim fez um disco histórico.
Com bela capa-objeto, Rosário é um lançamento Nonada Cultural/Paulus. Saiba mais sobre o grupo em www.nhambuzim.com.
















