Agosto 2008


Música e literatura: a união faz a força

Com “Jorge Amado” e “Rosário”, surge uma nova mídia onde a prosa ganha o universo fonográfico

Por Thiago Corrêa

 

A música e a literatura são duas artes que se identificam na poesia, mostrando semelhanças na métrica, no ritmo e nas rimas. Mais que isso, essa relação agora avança para a prosa, com o lançamento dos discos “Jorge Amado” e “Rosário”. O primeiro é fruto da parceria entre a gravadora Biscoito Fino e a Companhia das Letras, numa ação em conjunto ao relançamento da obra completa do escritor baiano.

Apesar do CD ser um suporte mais próximo do meio musical, o álbum “Jorge Amado” é um produto essencialmente literário. A editora selecionou trechos da obra do baiano para que fossem interpretados pelos atores Lázaro Ramos e Fernanda Montenegro. Os dois gravaram suas leituras dramáticas e só depois o músico Francis Hime fez suas intervenções ao piano, dando contornos musicais a partes do texto de Jorge Amado.

A grande dama do teatro brasileiro ficou encarregada dos trechos de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Tocaia Grande” e “Mar Morto”; enquanto Lázaro Ramos lê momentos de “Capitães da Areia”, “Terras do Sem-fim” e “Gabriela, Cravo e Canela”. O talento dos dois atores é inegável: só pela voz, eles nos fazem imaginar as suas expressões, num eficiente convite à leitura.

Ao fundo, em segundo plano, o piano de Francis Hime funciona como uma trilha sonora às narrações dos atores. Para rechear essas passagens, Hime aproveitou composições próprias e músicas de Chico Buarque, Tom Jobim e Dorival Caymmi.

Em “Capitães da Areia”, por exemplo, quando a voz de Lázaro conta o sofrimento de Pedro Bala durante a prisão no reformatório, as intervenções do pianista são minimalistas, com longas passagens de mudez. Um silêncio que ganha ainda mais significado em meio aos temas musicais “Anoiteceu”, “O Rei de Ramos”, “Canção Transparente”, “Lundú” e “Último Retrato”.

 

GUIMARÃES ROSA
O outro disco é “Rosário”, do grupo paulista Nhambuzim. Aqui, o carro-chefe é a música, deixando a literatura no plano conceitual. O álbum é todo inspirado no universo literário desenvolvido pelo escritor João Guimarães Rosa. As 17 músicas da bolacha buscam a alma do Sertão mítico explorado pelo escritor mineiro e fazem referências à personagens como o vaqueiro Manuelzão e o menino Miguilim, do livro “Corpo de Baile”, Diadorim, a prostituta Nhorinhá e o jagunço Joca Ramiro, de “Grande Sertão: Veredas” e Augusto Matraga, de “Sagarana”.

O Nhambuzim explora elementos da música sertaneja tradicional, com o som da viola, da percussão e do berrante, aliados aos belos vocais harmoniosamente encarnados por Edson Penha, Joel Teixeira e pela delicada voz de Sarah Abreu. O disco ainda traz novos arranjos para a música “A Terceira Margem do Rio”, composta por Milton Nascimento e Caetano Veloso, inspirada no conto de mesmo nome, presente no livro “Primeiras Estórias”.

Pocket show no Teatro Oficina (Encontro de Corais)

Fotos de Naomy Schölling 

 

 

 

  

Xavier Bartaburu  conta as histórias do grupo e do CD “Rosário – Canções inspiradas no sertão de Guimarães Rosa” 

Xavier foi  entrevistado por João Carlos Santana. 

Clique no logo da CBN para ouvir.

 

Guia da Folha (Mensal)

MPB

Por Sergio Molina

 

ROSÁRIO

O grupo vocal/instrumental Nhambuzim traz 17 canções inspiradas no sertão de Guimarães Rosa no ano em que comemoramos o centenário de seu nascimento. O septeto enfrenta com coragem as diversas questões que ele mesmo se impôs: como criar letras a partir do texto de Guimarães? Qual é a música dessa verve roseana? Como equilibrar palavras fortes de cunho pessoal com uma concepção musical que se preocupa em reservar grandes espaços para arranjos vocais? É ouvir e conferir. As participações especiais de Renato Braz, Paulo Freire e Gabriel Levy valorizam o trabalho, além da bem cuidada produção de Ricardo Zohyo. Dá vontade de pegar o Trem pra Cordisburgo e reler o Grande Sertão.

A banda Nhambuzim

Por Edgar augusto


O escritor mineiro Guimarães Rosa é fonte de inspiração do grupo paulistano Nhambuzim neste surpreendente Rosário, lançamento da Paulus inspirado nos livros Sagarana e Grande Sertão: Veredas. O disco traz 17 canções, a maioria autorais, duas pertencendo à tradição oral do norte mineiro (Aboio, originalmente entoada pelo vaqueiro Manuelzão, e Encomendação de Almas) e duas de autoria de outros compositores (“A terceira margem do rio”, de Milton Nascimento e Caetano Veloso, gravada por ambos, e Sagarana, de João de Aquino e Paulo César Pinheiro, registrada originalmente por Clara Nunes). O som do Nhambuzim é resultado da fusão de diferentes gêneros e linguagens. Sua marca é o uso de elementos da cultura regional inseridos em contexto contemporâneo, que incorpora traços do jazz e da música erudita. O grupo se forma com André Oliveira (percussão), Edson Penha (voz e berrante), Itamar Pereira (baixo), Joel Teixeira (voz, viola e violão), Rafael Mota (percussão), Sarah Abreu (voz) e Xavier Bartaburu (piano e arranjos vocais). Em Rosário a matriz sonora são os aboios, cantos de rezadeiras e ritmos tradicionais mineiros, com as letras evocando Guimarães Rosa a partir do olhar dos compositores do septeto. Renato Braz é o vocalista convidado de Um Miguilim, o violeiro Paulo Freire de Sagarana e Nonada de Mim e o acordeonista Gabriel Levy de Alvorecer. Já estamos mostrando pela Feira do Som (Cultura FM).
Guimar ães Rosa inspirou o disco da banda.

Coluna Lançamentos

Por Bruno Ribeiro

CD ROSÁRIO

No centenário do escritor Guimarães Rosa, o grupo paulista Nhambuzim lança álbum de temas próprios, mas inspirados em livros como Sagarana e Grande Sertão: Veredas. Na matriz sonora há aboios, congadas e cantos de rezadeiras convivendo com o jazz e a música erudita. O CD conta com a participação do violeiro Paulo Freire.

VEREDA MUSICAL – O sertão de todos nós


Grupo Nhambuzim lança CD de estréia inspirado no universo de Guimarães Rosa; obras como ‘Sagarana’ e ‘Grande Sertão: Veredas’ foram contempladas

 

Para João Guimarães Rosa, o sertão é o sozinho, mas também está em todo lugar. Onde vive o sertanejo, diáfano como cristal misterioso, que o grupo paulistano Nhambuzim desvenda um pouco mais em cada uma das 17 faixas do CD de estréia ”Rosário: canções inspiradas no sertão de Guimarães Rosa” (Paulus).

Inspirado na obra do escritor mineiro, o CD é um bocado a mais de poesia cabocla numa releitura musical do autor – sem querer dizer que é possível faltar algo de lirismo à literatura de Guimarães Rosa.
O próprio escritor afirmava que, às vezes, acreditava ser João, um conto contado por ele mesmo. No CD, o autor se deixa cantar pelos delicados arranjos vocais do grupo, que resgata uma tradição antiga da música brasileira.
Formado por André Oliveira (percussão), Edson Penha (voz e berrante), Itamar Pereira (baixo), Joel Teixeira (voz, violão e viola), Rafael Mota (percussão), Sarah Abreu (Voz) e Xavier Bartaburu (piano e arranjos vogais), ”Nhambuzim” contou com as participações de Gabriel Levy, um dos maiores acordeonistas do País, e Paulo Freire, violeiro e escritor que cedeu a uma paixão por Guimarães Rosa, que o levou até Urucaia, em Minas Gerais, aprendendo a tocar com os grandes mestres da região. O cantor e baterista Renato Braz também é destaque no disco em músicas como ”Nonada de Mim”.
O centenário de nascimento do escritor recebe Nhambuzim em suas veredas. Nelas, o grupo, urbano de nascimento, encontra o sertão por adoção.
Filhos de uma sonoridade de variadas influências, agregando-se a uma família de instrumentos regionais, como a viola e o berrante, o primeiro rebento do Nhambuzim, ”Rosário”, é um menino bonito, parrudo e que dá gosto de ouvir.
O mundo, que está em toda parte, de ”Grande Sertão: Veredas”, abre um botão em flor na música ”Outras Rosas”.
”Há uma flor no meio do caminho”, repete incessantemente o refrão. É ela, Nhorinhá, a prostituta que, na obra do escritor representa o amor físico, com um cheiro de profano e sensual.
Os versos vão andando com as mãos nas cadeiras até lembrar de Diadorim, a figura do amor impossível, proibido, que tem os braços em forma de desejo e repulsa.
”Diadorim, damo da guerra, dos opostos/Vinganças turvas, é/Amor calado, foi/Querer profano”.
O repertório traz composições próprias e duas pertencem à tradição oral do norte mineiro, entre elas ”Aboio”, originalmente cantada pelo vaqueiro Manuelzão, que comandou a comitiva que pôs Guimarães Rosa no caminho de um reencontro com o sertão.
Outros compositores também estão no CD, como Milton Nascimento e Caetano Veloso em ”A Terceira Margem do Rio”, que foi gravada pelos dois, e ”Sagarana”, de João de Aquino e Paulo César, que já contou com a voz de Clara Nunes.
O nome do grupo, criado em 2002, faz alusão ao nhambu, uma ave típica do cerrado, que o povo do sertão tem em alta conta. Uma lenda indígena diz que a filha da Cobra Grande teria criado o nhambu para separar o dia da noite.
Um pássaro cantador. Uma ave que pia no fim da tarde. Um nome inspirador que pousou bem de mansinho para fazer a gente cantar junto, enquanto se encanta com as músicas inspiradas nas veredas de Guimarães Rosa.

 

22/08/2008 – PROGRAMA SABOR DE VIDATV Aparecida – Sexta-feira, das 15h25 às 17h.

  

23/08/2008 – PROGRAMA SALA DE MÚSICARádio CBN - Sábado, das 21h às 22h.

  

24/08/2008 – ENCONTRO DE CORAIS E MADRIGAIS OFICINA 50 ANOSTeatro Oficina – Rua Jaceguai, 520, Bexiga, São Paulo, SP – Domingo, 11h

 

05/09/2008 – POCKET-SHOWLivraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915 – Vila Madalena, São Paulo, SP – Sexta-feira, 19h45.

  

06/09/2008 – RENATO BRAZ CANTA E RECEBE SEUS CONTEMPORÂNEOS (participação especial de Nhambuzim e Mário Gil) – SESC-Santana – Av. Luiz Dumont Vilares, 579, Santana, São Paulo, SP – Sábado, 21h.

 

13/09/2008 – SHOW ROSÁRIOSESC-Ipiranga – Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, São Paulo – SP- Sábado, 20h

Literatura cantada

Da prosa à poesia, obras literárias inspiram produção musical brasileira
O centenário da morte de Machado de Assis e o do nascimento de Guimarães Rosa trouxeram à tona uma faceta nem sempre explorada por quem estuda os últimos 100 anos de ficção e poesia brasileiras: a capacidade de uma obra literária inspirar outras formas de expressão. A música popular, por exemplo, é velha usuária da literatura. E fatos culturais recentes mostram essa tradição em pleno vigor.
João Guimarães Rosa, por exemplo, serviu de base para todo um CD composto pelo grupo paulista Nhambuzim. Já a edição deste ano do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão (SP), cujo tema foi a literatura, apresentou em julho músicas inspiradas em autores universais, dentre eles, Machado de Assis, única presença nacional. Quem perdeu o evento, pode ver Machado musicado na recém-lançada exposição Machado de Assis, Mas este não é um capítulo sério, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. No corredor dedicado à poesia machadiana está a versão em partitura de Coração triste falando ao sol, de Alberto Nepomuceno (1864-1920), “pai” do nacionalismo na música erudita brasileira.

Cada iniciativa do gênero mostra uma possibilidade da linguagem literária, a de continuar fazendo efeito para além de seu conteúdo verbal.

Machado
Coube ao compositor João Guilherme Ripper a tarefa de dar versão musical ao livro Dom Casmurro para o evento de Campos do Jordão. A peça Olhos de Capitu foi executada com orquestra e narrador, que leu trechos da obra. Na última parte do espetáculo, uma soprano cantou Modinha para Machado, canção feita por Ripper.

- A música tem o papel de reforçar as características dos personagens. No trecho de Capitu, “a mulher com olhos de ressaca”, privilegiei os sons parecidos com os de água – comenta Ripper.

Em 1996, Ripper também compôs a ópera de câmara Augusto Matraga, inspirado em Guimarães Rosa; e, em 2003, adaptou a tragédia O Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, para a música erudita.

Antes das comemorações do centenário, a prosa de Machado já havia inspirado canção de Luiz Tatit, que é professor de lingüística da USP. Em 1999, ele escreveu Capitu, gravada por Zélia Duncan e Ná Ozzetti. O mistério em torno da personagem é o mote da canção, que se apega só ao tema de Dom Casmurro e não ao estilo do autor.

Agora, na exposição do Museu da Língua Portuguesa dedicada a Machado, manuscritos do capítulo “Ao Piano”, de Memorial de Aires, trazem uma seqüência de notas musicais escritas por Machado de Assis e usadas por José Miguel Wisnik para criar a trilha sonora da exposição, a pedido dos curadores Cacá Machado e Vadim Nikitin.

Guimarães Rosa
Inspiração ampla também provocou Guimarães Rosa. Há seis anos, o grupo Nhambuzim se aventura a musicar o universo criado por ele. Acabam de lançar Rosário, CD com 13 faixas que recriam a cena do Vale do Jequitinhonha, região do norte de Minas Gerais explorada pelo escritor em sua obra.

- O texto de Guimarães é muito sonoro e evocativo. Ao compor, percebi como ele pode ser compreendido se lido em voz alta. Se tiver sotaque sertanejo, melhor ainda – diz Xavier Bartaburu, um dos três compositores do Nhambuzim.  

Depois da leitura atenta e do contato com estudiosos, os compositores criaram letras baseadas no estilo do autor. A narrativa escrita que mais parece oral, o olhar para o interior do país, os neologismos, tudo ritmado pelo toque do violão.

Dos contos de Primeiras Estórias, surgiram as letras Querência (inspirada no conto Seqüência), e Arvorecer (baseado em Os Cimos); já Redenção se baseou na saga de A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Sagarana. Personagens e passagens resultaram em canções, como Cantiga de Desverdear, inspirada em Diadorim, de Grande Sertão: Veredas.

- Fizemos um trabalho livre de interpretação. Apesar disso, tivemos a preo­cupação de estudar o universo roseano. Não se pode produzir um trabalho como esse e estragar ou empobrecer o original. É preciso fazer uma obra à altura da referência, nunca menor – explica o letrista Edson Penha.

Sagarana
Essa também foi a preocupação do compositor Paulo César Pinheiro quando criou melodia para Sagarana, inspirada em Rosa, e que ganhou notoriedade na voz de Clara Nunes. Hoje com 59 anos, Pinheiro tinha 16 quando escreveu a letra.

- Estava imbuído do espírito dos seus livros. Daí, fiz primeiro a melodia no violão, um gênero musical do sertão mineiro.
Depois, a letra. Hoje, não conseguiria fazer aquela música. Não estou tão próximo do universo dele como antes. – conta.

Tempos depois, Pinheiro criou outra letra inspirada em Rosa, Matita Perê, presenteada a Tom Jobim. A música virou título de um disco jobiniano, de 1972. Mas foi durante a composição de Sagarana, que Pinheiro, tomado pela aura roseana, assimilou uma marca de Rosa, a criação de neologismos. Aquele que erra foi chamado de “erroso” e o jeito de trocar olhares virou “olhâncias”. Xavier Bartaburu, do Nhambuzim, também criou o seu: “guimaraneamente” está presente na música Razão.

Rosa inspirou muitos outros. Renato Andrade, violeiro falecido em 2005, fez composição instrumental para o personagem Augusto Matraga. Outro representante da moda de viola, Paulo Freire criou a trilha sonora da minissérie da Rede Globo, Grande Sertão: Veredas (1985), em parceria com o maestro Júlio Medaglia. Também o violeiro Téo Azevedo musicou Rosa em composições como Veredas do grande sertão.

(…)

Espetáculo canta universo roseano

 

Em todo fim de tarde o nhambu, uma ave do sertão, anuncia com o seu canto o pôr-do-sol, é o começo da noite com os seus sortilégios. Conhecido como nhambu-relógio por demarcar a hora do lusco-fusco, palavra da predileção de Rosa, o nhambu aponta para o fim do trabalho: é a entrega à cantoria. Inspirado nesse pássaro que volta e meia aparece nas obras de Guimarães Rosa, um grupo paulistano – que se vale do regional para produzir uma música em direção ao universal – se batizou de “Nhambuzim”, acrescentando o carinhoso diminutivo.

“Guimarães Rosa conta, a gente canta e reconta”, diz o pianista Xavier Bartaburu sobre a fórmula do “Nhambuzim” no primeiro CD – “Rosário”. O trabalho será apresentado em show gratuito amanhã (27), às 19h30, no Centro Cultural São Paulo. “Mas é preciso deixar claro que o Nhambuzim não é o grupo do Guimarães Rosa, usamos os personagens e enredos, a mitologia do sertão, que ele inventou como gatilho das nossas criações”, diz o compositor Edson Penha.

Nhambuzim é mais uma confirmação da tendência da obra rosiana de extrapolar os limites da literatura brasileira, para a qual é poderoso modelo até hoje, para servir de alicerce à música, ao teatro e ao cinema. Com resultados notáveis, a provar o longa-metragem “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” (1965), de Roberto Santos, a encenação de “Grande Sertão: Veredas” por Antunes Filho e as composições de Milton Nascimento, Chico Buarque e Caetano Veloso, entre outros.

Das 17 faixas que compõem “Rosário”, 13 são de autoria de três integrantes do grupo – Xavier Bartaburu, Edson Penha e Joel Teixeira (voz, viola e violão). A inspiração no rico criador de palavras que é Guimarães Rosa ampara o cuidado com as composições do trio. Mas eles não pretendem ser inventores de um novo vocabulário: as letras das canções surgem apenas de uma interpretação mergulhada na subjetividade.

Os compositores do Nhambuzim dizem correr o risco do compor livremente sobre os livros de Rosa. “Não quero sugar o texto do escritor, eu apenas faço uma leitura com musicalidade e ritmo dos elementos do universo dele”, diz Edson Penha, que compõe tanto em cima de trechos como de contos inteiros. “Ele é um monstro, quero me manter dentro de uma proximidade que não destrua nem complique o trabalho de Guimarães Rosa”, completa.

A universalidade do escritor mineiro é um dos valores do Nhambuzim. Dizendo-se sertão sem deixar de ser cidade, brasileiro sem deixar de ser universal, o grupo criado em 2002 apóia-se no seguinte pilar: as canções ganham um cuidadoso arranjo de vozes e se aliam a diferentes formas narrativas como a literatura oral.

Em cada canção, aparecem, às vezes simultâneas, às vezes em seqüência, as vozes de Edson Penha, Joel Teixeira e Sarah Abreu, que formam o Nhambuzim com Xavier Bartaburu (piano), André Oliveira (percussão), Itamar Pereira (baixo) e Rafael Mota (percussão). “A nossa forma de cantar está ligada às lavadeiras e rezadoras do interior de Minas Gerais”, define Xavier.

Caderno Cultura

Coluna Carlos Buzelin

DISCOS EM PROFUSÃO

O avanço tecnológico permite a produção de CDs até mesmo dentro de casa. No entanto, as gravadoras detêm prerrogativas exclusiva, observada a legislação, inclusive de incentivos, ou congêneres. O que não se leva em conta, na maioria das vezes, é a qualidade artística e cultural de tais manifestações. Em geral, destituídas do mínimo que se espera do que se pode chamar de música. Noutras palavras, CDs em profusão chegam à imprensa, nem sempre fascinantes.

A preocupação da crítica é avaliar e sugerir. Apontar falhas e enaltecer acertos. Sempre de modo construtivo e observador da ética.

De certa forma excepcionais, oito CDs recém-lançados merecem atenção. São trabalhos bem elaborados, de apreciável sonoridade, com propostas sérias.

(…)

Nhambuzim, Rosário, registra canções inspiradas no sertão de Guimarães Rosa. A mineiridade em primeiro lugar, assim como esclarecedora referência ao Nhambu, pássaro que pia no fim da tarde anunciando que o dia acabou. Mas Nhambuzim é de cidade. Teria nascido em São Paulo, onde se ouve mais pio de buzina que de Nhambu… Enfim vale ouvir o CD por seus aspectos culturais de expressiva pesquisa ambiental, ecológica. Ao estilo de Villa-Lobos.

(…)

Em suma, bons CDs que merecem ser recomendados.

Os sertões sonoros de Rosa

 

Por André Domingues

 

Um ingrediente certo do deslumbre de qualquer leitor de Guimarães Rosa é o brilhantismo da trama sonora que teceu, em sua recriação da oralidade popular. Não é de se estranhar, portanto, que os músicos, artífices do som, volta e meia se sintam tentados a tomá-lo com inspiração de suas composições.

 

É o caso do grupo paulistano Nhambuzim, que aproveita a data do centenário do escritor para lançar seu primeiro disco, Rosário.

É um trabalho interessante, focado bem menos em musicar as palavras de Rosa, do que em criar versos, melodias e arranjos que tenham seu universo como premissa fundamental. Daí a preocupação com enfatizar traços regionais dos sertões do sudeste e do centro-oeste brasileiros, investindo nas batidas da catira ou da congada, por exemplo, mas recombinando-os com certos elementos sofisticados da música contemporânea, numa transposição musical da busca de Rosa por uma arte ao mesmo tempo típica e universal. Um bom exemplo desse esforço é a canção Um Miguilim, dedicada ao simpático personagem de Manuelzão e Miguilim, uma toada de harmonia moderna que recebeu, ainda, um elaborado arranjo de vozes com participação especial de Renato Braz – também como o violeiro Paulo Freire.

 

Embora predominantemente autorais, o CD e o show Rosário trazem, também, releituras de canções do folclore mineiro e de duas obras inspiradas na prosa do escritor: A terceira margem do Rio, de Milton Nascimento e Caetano Veloso, e Sagarana, de João de Aquino e Paulo César Pinheiro. Duas provas a mais de que os sertões sonoros de Rosa podem ser tão vastos quanto os da literatura.

Coluna Lançamentos

 

ROSÁRIO: CANÇÕES INSPIRADAS NO SERTÃO DE GUIMARÃES ROSA

 

Por Marcelo Fiúza

 

NHAMBUZIM – A tradição do sertão e a metafísica presentes na prosa de Guimarães Rosa têm novo ponto de encontro: a música  do grupo Nhambuzim registrada no CD Rosário. São 17 faixas tocadas pela banda, duas delas vêm da tradição oral norte-mineira, uma terceira é de Caetano e Milton, A Terceira Margem do Rio, outra é de Paulo César Pinheiro, Sagarana. O resto, de autoria dos músicos do Nhambuzim, é livre tradução do universo ao mesmo tempo ritualístico e mágico de Rosa, com sua típica criação de palavras aqui emoldurada por arranjos vocais, mas incorporando elementos eruditos e contemporâneos como o jazz.