Espetáculo canta universo roseano
Em todo fim de tarde o nhambu, uma ave do sertão, anuncia com o seu canto o pôr-do-sol, é o começo da noite com os seus sortilégios. Conhecido como nhambu-relógio por demarcar a hora do lusco-fusco, palavra da predileção de Rosa, o nhambu aponta para o fim do trabalho: é a entrega à cantoria. Inspirado nesse pássaro que volta e meia aparece nas obras de Guimarães Rosa, um grupo paulistano – que se vale do regional para produzir uma música em direção ao universal – se batizou de “Nhambuzim”, acrescentando o carinhoso diminutivo.
“Guimarães Rosa conta, a gente canta e reconta”, diz o pianista Xavier Bartaburu sobre a fórmula do “Nhambuzim” no primeiro CD – “Rosário”. O trabalho será apresentado em show gratuito amanhã (27), às 19h30, no Centro Cultural São Paulo. “Mas é preciso deixar claro que o Nhambuzim não é o grupo do Guimarães Rosa, usamos os personagens e enredos, a mitologia do sertão, que ele inventou como gatilho das nossas criações”, diz o compositor Edson Penha.
Nhambuzim é mais uma confirmação da tendência da obra rosiana de extrapolar os limites da literatura brasileira, para a qual é poderoso modelo até hoje, para servir de alicerce à música, ao teatro e ao cinema. Com resultados notáveis, a provar o longa-metragem “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” (1965), de Roberto Santos, a encenação de “Grande Sertão: Veredas” por Antunes Filho e as composições de Milton Nascimento, Chico Buarque e Caetano Veloso, entre outros.
Das 17 faixas que compõem “Rosário”, 13 são de autoria de três integrantes do grupo – Xavier Bartaburu, Edson Penha e Joel Teixeira (voz, viola e violão). A inspiração no rico criador de palavras que é Guimarães Rosa ampara o cuidado com as composições do trio. Mas eles não pretendem ser inventores de um novo vocabulário: as letras das canções surgem apenas de uma interpretação mergulhada na subjetividade.
Os compositores do Nhambuzim dizem correr o risco do compor livremente sobre os livros de Rosa. “Não quero sugar o texto do escritor, eu apenas faço uma leitura com musicalidade e ritmo dos elementos do universo dele”, diz Edson Penha, que compõe tanto em cima de trechos como de contos inteiros. “Ele é um monstro, quero me manter dentro de uma proximidade que não destrua nem complique o trabalho de Guimarães Rosa”, completa.
A universalidade do escritor mineiro é um dos valores do Nhambuzim. Dizendo-se sertão sem deixar de ser cidade, brasileiro sem deixar de ser universal, o grupo criado em 2002 apóia-se no seguinte pilar: as canções ganham um cuidadoso arranjo de vozes e se aliam a diferentes formas narrativas como a literatura oral.
Em cada canção, aparecem, às vezes simultâneas, às vezes em seqüência, as vozes de Edson Penha, Joel Teixeira e Sarah Abreu, que formam o Nhambuzim com Xavier Bartaburu (piano), André Oliveira (percussão), Itamar Pereira (baixo) e Rafael Mota (percussão). “A nossa forma de cantar está ligada às lavadeiras e rezadoras do interior de Minas Gerais”, define Xavier.