Literatura cantada

Da prosa à poesia, obras literárias inspiram produção musical brasileira
O centenário da morte de Machado de Assis e o do nascimento de Guimarães Rosa trouxeram à tona uma faceta nem sempre explorada por quem estuda os últimos 100 anos de ficção e poesia brasileiras: a capacidade de uma obra literária inspirar outras formas de expressão. A música popular, por exemplo, é velha usuária da literatura. E fatos culturais recentes mostram essa tradição em pleno vigor.
João Guimarães Rosa, por exemplo, serviu de base para todo um CD composto pelo grupo paulista Nhambuzim. Já a edição deste ano do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão (SP), cujo tema foi a literatura, apresentou em julho músicas inspiradas em autores universais, dentre eles, Machado de Assis, única presença nacional. Quem perdeu o evento, pode ver Machado musicado na recém-lançada exposição Machado de Assis, Mas este não é um capítulo sério, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. No corredor dedicado à poesia machadiana está a versão em partitura de Coração triste falando ao sol, de Alberto Nepomuceno (1864-1920), “pai” do nacionalismo na música erudita brasileira.

Cada iniciativa do gênero mostra uma possibilidade da linguagem literária, a de continuar fazendo efeito para além de seu conteúdo verbal.

Machado
Coube ao compositor João Guilherme Ripper a tarefa de dar versão musical ao livro Dom Casmurro para o evento de Campos do Jordão. A peça Olhos de Capitu foi executada com orquestra e narrador, que leu trechos da obra. Na última parte do espetáculo, uma soprano cantou Modinha para Machado, canção feita por Ripper.

- A música tem o papel de reforçar as características dos personagens. No trecho de Capitu, “a mulher com olhos de ressaca”, privilegiei os sons parecidos com os de água – comenta Ripper.

Em 1996, Ripper também compôs a ópera de câmara Augusto Matraga, inspirado em Guimarães Rosa; e, em 2003, adaptou a tragédia O Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, para a música erudita.

Antes das comemorações do centenário, a prosa de Machado já havia inspirado canção de Luiz Tatit, que é professor de lingüística da USP. Em 1999, ele escreveu Capitu, gravada por Zélia Duncan e Ná Ozzetti. O mistério em torno da personagem é o mote da canção, que se apega só ao tema de Dom Casmurro e não ao estilo do autor.

Agora, na exposição do Museu da Língua Portuguesa dedicada a Machado, manuscritos do capítulo “Ao Piano”, de Memorial de Aires, trazem uma seqüência de notas musicais escritas por Machado de Assis e usadas por José Miguel Wisnik para criar a trilha sonora da exposição, a pedido dos curadores Cacá Machado e Vadim Nikitin.

Guimarães Rosa
Inspiração ampla também provocou Guimarães Rosa. Há seis anos, o grupo Nhambuzim se aventura a musicar o universo criado por ele. Acabam de lançar Rosário, CD com 13 faixas que recriam a cena do Vale do Jequitinhonha, região do norte de Minas Gerais explorada pelo escritor em sua obra.

- O texto de Guimarães é muito sonoro e evocativo. Ao compor, percebi como ele pode ser compreendido se lido em voz alta. Se tiver sotaque sertanejo, melhor ainda – diz Xavier Bartaburu, um dos três compositores do Nhambuzim.  

Depois da leitura atenta e do contato com estudiosos, os compositores criaram letras baseadas no estilo do autor. A narrativa escrita que mais parece oral, o olhar para o interior do país, os neologismos, tudo ritmado pelo toque do violão.

Dos contos de Primeiras Estórias, surgiram as letras Querência (inspirada no conto Seqüência), e Arvorecer (baseado em Os Cimos); já Redenção se baseou na saga de A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Sagarana. Personagens e passagens resultaram em canções, como Cantiga de Desverdear, inspirada em Diadorim, de Grande Sertão: Veredas.

- Fizemos um trabalho livre de interpretação. Apesar disso, tivemos a preo­cupação de estudar o universo roseano. Não se pode produzir um trabalho como esse e estragar ou empobrecer o original. É preciso fazer uma obra à altura da referência, nunca menor – explica o letrista Edson Penha.

Sagarana
Essa também foi a preocupação do compositor Paulo César Pinheiro quando criou melodia para Sagarana, inspirada em Rosa, e que ganhou notoriedade na voz de Clara Nunes. Hoje com 59 anos, Pinheiro tinha 16 quando escreveu a letra.

- Estava imbuído do espírito dos seus livros. Daí, fiz primeiro a melodia no violão, um gênero musical do sertão mineiro.
Depois, a letra. Hoje, não conseguiria fazer aquela música. Não estou tão próximo do universo dele como antes. – conta.

Tempos depois, Pinheiro criou outra letra inspirada em Rosa, Matita Perê, presenteada a Tom Jobim. A música virou título de um disco jobiniano, de 1972. Mas foi durante a composição de Sagarana, que Pinheiro, tomado pela aura roseana, assimilou uma marca de Rosa, a criação de neologismos. Aquele que erra foi chamado de “erroso” e o jeito de trocar olhares virou “olhâncias”. Xavier Bartaburu, do Nhambuzim, também criou o seu: “guimaraneamente” está presente na música Razão.

Rosa inspirou muitos outros. Renato Andrade, violeiro falecido em 2005, fez composição instrumental para o personagem Augusto Matraga. Outro representante da moda de viola, Paulo Freire criou a trilha sonora da minissérie da Rede Globo, Grande Sertão: Veredas (1985), em parceria com o maestro Júlio Medaglia. Também o violeiro Téo Azevedo musicou Rosa em composições como Veredas do grande sertão.

(…)