Música e literatura: a união faz a força
Com “Jorge Amado” e “Rosário”, surge uma nova mídia onde a prosa ganha o universo fonográfico
Por Thiago Corrêa
A música e a literatura são duas artes que se identificam na poesia, mostrando semelhanças na métrica, no ritmo e nas rimas. Mais que isso, essa relação agora avança para a prosa, com o lançamento dos discos “Jorge Amado” e “Rosário”. O primeiro é fruto da parceria entre a gravadora Biscoito Fino e a Companhia das Letras, numa ação em conjunto ao relançamento da obra completa do escritor baiano.
Apesar do CD ser um suporte mais próximo do meio musical, o álbum “Jorge Amado” é um produto essencialmente literário. A editora selecionou trechos da obra do baiano para que fossem interpretados pelos atores Lázaro Ramos e Fernanda Montenegro. Os dois gravaram suas leituras dramáticas e só depois o músico Francis Hime fez suas intervenções ao piano, dando contornos musicais a partes do texto de Jorge Amado.
A grande dama do teatro brasileiro ficou encarregada dos trechos de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Tocaia Grande” e “Mar Morto”; enquanto Lázaro Ramos lê momentos de “Capitães da Areia”, “Terras do Sem-fim” e “Gabriela, Cravo e Canela”. O talento dos dois atores é inegável: só pela voz, eles nos fazem imaginar as suas expressões, num eficiente convite à leitura.
Ao fundo, em segundo plano, o piano de Francis Hime funciona como uma trilha sonora às narrações dos atores. Para rechear essas passagens, Hime aproveitou composições próprias e músicas de Chico Buarque, Tom Jobim e Dorival Caymmi.
Em “Capitães da Areia”, por exemplo, quando a voz de Lázaro conta o sofrimento de Pedro Bala durante a prisão no reformatório, as intervenções do pianista são minimalistas, com longas passagens de mudez. Um silêncio que ganha ainda mais significado em meio aos temas musicais “Anoiteceu”, “O Rei de Ramos”, “Canção Transparente”, “Lundú” e “Último Retrato”.
GUIMARÃES ROSA
O outro disco é “Rosário”, do grupo paulista Nhambuzim. Aqui, o carro-chefe é a música, deixando a literatura no plano conceitual. O álbum é todo inspirado no universo literário desenvolvido pelo escritor João Guimarães Rosa. As 17 músicas da bolacha buscam a alma do Sertão mítico explorado pelo escritor mineiro e fazem referências à personagens como o vaqueiro Manuelzão e o menino Miguilim, do livro “Corpo de Baile”, Diadorim, a prostituta Nhorinhá e o jagunço Joca Ramiro, de “Grande Sertão: Veredas” e Augusto Matraga, de “Sagarana”.
O Nhambuzim explora elementos da música sertaneja tradicional, com o som da viola, da percussão e do berrante, aliados aos belos vocais harmoniosamente encarnados por Edson Penha, Joel Teixeira e pela delicada voz de Sarah Abreu. O disco ainda traz novos arranjos para a música “A Terceira Margem do Rio”, composta por Milton Nascimento e Caetano Veloso, inspirada no conto de mesmo nome, presente no livro “Primeiras Estórias”.
