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Palavra e partitura

Por João Correia Filho, para o Valor, de São Paulo 19/12/2008

 

Vai viajar? Vai levar um livro e um CD na bagagem? Pois tem um grupo que uniu as duas coisas, literatura e música, palavra e partitura, num só trabalho. Ao se debruçar sobre a obra do escritor João Guimarães Rosa, sete músicos resolveram formar uma banda e compor, cantar e poetizar o que esse grande mestre deixou no papel. O sertão, seus personagens, a natureza, a infância e outros temas abordados por Rosa são a base de letras e melodias do grupo Nhambuzim, formado em 2002, que gravou seu primeiro CD, “Rosário” neste ano, quando se comemora o centenário do escritor.

Foi num apartamento da capital paulista, entre edifícios e ruas movimentadas, que parte dos integrantes se reuniu e viu que tinha algo em comum – a paixão pelo universo rosiano. Wagner Dias, violonista, que não está mais no grupo, havia composto “Estória de Navegar”, inspirado no conto “A Partida do Audaz Navegante”, do livro “Primeiras Estórias”. O compositor Edson Penha lia pela segunda vez “Grande Sertão: Veredas” e percebeu que algumas passagens tinham mexido tanto com ele que facilmente virariam músicas. “A travessia do Liso do Sussuarão, a morte de Joca Ramiro e a morte de Diadorim ficaram na minha cabeça e me deram um estalo – por que não montamos um projeto musical com base nas obras do Guimarães?”, conta.

O projeto inicial chamou-se Paisagem Cantada, pois tinha como base as paisagens descritas pelo escritor. “A paisagem é um dos elementos que Guimarães Rosa utiliza para nos fazer entender o ser humano. Essa também é uma de nossas bases para explorar esse ’sertão que está dentro da gente’”, completa o músico, parafraseando o personagem Riobaldo Tatarana, de “Grande Sertão:Veredas”.

Mais músicos foram incorporados e o grupo tornou-se algo maior que o projeto inicial. Virou o Nhambuzim, hoje com sete integrantes: Sarah Abreu, Edson Penha e Joel Teixeira nas vozes, André Oliveira e Rafael Mota na percussão, Itamar Pereira no baixo e Xavier Bartaburu no piano.

Eles contam que sempre foi uma de suas preocupações não virar um grupo regional, baseado apenas na viola e na  percussão, mas sim manter o pé nas duas margens – a cultura popular e a música contemporânea. Penha explica que essa equação musical foi resolvida naturalmente com a entrada do baixo de Itamar Pereira e do piano de Bartaburu, que deram um tom mais contemporâneo às canções.

Uma prova dessa mistura bem-feita é a música de abertura, “Aboio”, que resgata um aboio tradicional do norte de Minas, mas o traduz com várias vozes e o vocal predominantemente feminino de Sarah Abreu. Muito relacionados ao universo masculino, os aboios são músicas e sons que os boiadeiros entoam para tocar o gado.

O trecho interpretado pelo Nhambuzim foi recolhido de um videodocumentário sobre a vida de Manuel Nardy, vaqueiro que inspirou o personagem Manuelzão, do livro “Manuelzão e Miguilim”. Tal vídeo, intitulado “O Torto Encanto de Manuelzão”, foi produzido por mim em 1993, como projeto de conclusão do curso de jornalismo. Reconta a vida do vaqueiro que ficou famoso por ter sido guia e capataz de uma viagem que Rosa fez pelo sertão em 1952.

O escritor acompanhava uma comitiva de 300 cabeças de gado, levada por oito vaqueiros da cidade de Três Marias a Araçaí (a 120 quilômetros de Belo Horizonte). Manuelzão era um deles. As anotações e impressões recolhidas por Rosa foram usadas mais tarde em suas obras. Em 1956, lançaria “Corpo de Baile” (que inclui “Manuelzão e Miguilim”) e “Grande Sertão: Veredas”.

Em “Pé no Chão”, a segunda faixa de “Rosário”, o grupo faz uma homenagem direta ao velho vaqueiro, morto em 1997, aos 92 anos, em Andrequicé, pequeno distrito a 300 quilômetros da capital mineira.

Em “Um Miguilim” recuperam outro importante personagem do escritor, tido como uma releitura de sua infância, vivida até os 8 anos na pequena cidade de Cordisburgo, interior de Minas. O grupo também faz forte referência ao lugar imaginário onde vivia Miguilim, o Mutum, nome de um pássaro do cerrado brasileiro. Aliás, o nome dessa ave faz lembrar que o nome do grupo, Nhambuzim, também deriva de um pássaro, o nhambu, que habita a mesma região. Nessa faixa o grupo ainda brinca com neologismos, recurso que o escritor usou de forma genial em suas narrativas: “Miguilim: brejal pra se campear/ Buriti: afã de nuvear/ Broto de pequi/ Terra de amanhar”, diz a letra de Edson Penha. A faixa, uma das mais belas do CD, conta com a participação do músico Renato Braz, na voz e percussão.

Outro ponto destacado em “Rosário” é a presença da água no universo rosiano. É comum relacionar o cenário do escritor com a secura da caatinga nordestina, enquanto se trata na verdade do cerrado ecossistema riquíssimo que cobre parte de Minas, Goiás e Bahia. Até mesmo a palavra vereda é atrelada apenas ao sentido de caminho, e não como um local do sertão onde brota a água, cercada de buritis e rodeada de animais. Hoje, um dos locais que ainda preservam esse cenário natural descrito pelo escritor é o Parque Nacional Grande Sertão: Veredas, no extremo norte de Minas. As veredas têm desaparecido ano após ano.

A música “Canoeiros” toca o tema ao fazer uma releitura do conto “Azo de Almirante”, do livro “Tutaméia”. O Nhambuzim também gravou “A Terceira Margem do Rio”, composta por Milton Nascimento e Caetano Veloso, cuja fonte de inspiração é o conto de mesmo nome, do livro “Primeiras Estórias”.

Há ainda outros contos que são cantados pelo grupo, como a música “Querência”, inspirada no conto “Seqüência”, também do “Primeiras Estórias”. Ou ainda “Arvorecer”, inspirada no conto “Os Cimos”, do mesmo livro. Essa faixa conta com a participação do acordeonista Gabriel Levy. O conto “Duelo”, de “Sagarana”, também ganhou versão musical e “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” foi traduzido na música “Redenção”.

“Grande Sertão: Veredas” é inspiração para 7 das 17 músicas do disco. “Passagem para o Nada” lembra a travessia de Riobaldo Tatarana pelo Liso do Sussuarão, um deserto mítico descrito por Rosa que até hoje instiga pesquisadores acerca de sua real existência. Muitos acreditam que Rosa se inspirou nas regiões secas do sul da Bahia, outros dizem que o Liso é na verdade o deserto do Jalapão.

Já “Nonada de Mim” reflete sobre o amor entre Riobado e Diadorim; “Outras Rosas” fala das mulheres que cruzam o caminho do personagem, como Norinhá, Maria Mutema e Otacília.

Para finalizar, interpretam “Sagarana”, de João de Aquino e Paulo César Pinheiro, praticamente um hino ao cerrado, gravado por Clara Nunes em 1977. A música, que atravessou os tempos, serve de referência ao Nhambuzim, que a partir do ano que vem vai começar a imprimir sua marca musical em outros projetos sem relação direta com o universo de Guimarães Rosa ou mesmo com a literatura.

Já pensando em novos vôos, Xavier Bartaburu deixa claro que o Nhambuzim não é um grupo que só faz músicas sobre a obra de Guimarães Rosa, embora tenha dedicado seu primeiro trabalho a ele. “A leitura de sua obra foi na verdade a chave para o grupo descobrir o que realmente quer fazer, que é manter sempre os pés na cidade e as vistas no sertão, tal como fez o escritor.”