JORNAL DA TARDE – 06/05/2011
Show – Um mergulho nas tradições brasileiras
Grupo Nhambuzim mostra novo trabalho, ligado ao universo dos encantados, no CCSP
Adriana Del Ré
Em 1938, a Missão de Pesquisas Folclóricas foi criada com o objetivo de registrar as manifestações culturais e folclóricas no Norte e Nordeste do Brasil, sobretudo a dança e a música. Organizada por Mário de Andrade, então diretor do Departamento de Cultura da Cidade de São Paulo, a caravana retornou com objetos, fotos e instrumentos, além de gravações de músicas e filmes.
Para celebrar o lançamento da digitalização das cadernetas de campo da Missão, o grupo paulistano Nhambuzim se apresenta hoje, no Centro Cultural São Paulo (CCSP) – que mantém, em seu acervo, o material recolhido pela caravana. Os pernambucanos da banda de Pífanos de Caruaru são outra atração do evento. “Os Pífanos representam o espírito do que a Missão foi buscar e o Nhambuzim se apropriou desse espírito”, conceitua Xavier Bartaburu, pianista e compositor do grupo.
A atividade desde 2002, o Nhambuzim já nasceu com a intenção de preservar as tradições culturais do povo brasileiro e também de contextualizá-las numa roupagem contemporânea. Mas foi em 2008 que o trabalho do coletivo dos músicos ganhou visibilidade, com o lançamento de seu disco de estreia, Rosário – Canções Inspiradas no Sertão de Guimarães Rosa (selo Paulus).
O disco estava inserido numa série de homenagens feitas ao escritor. Esses tributos vieram no encalço de algumas efemérides, que acabaram por colocar a obra de Guimarães Rosa novamente em evidência. Primeiro, a celebração dos 50 anos de Grande Sertão: Veredas, em 2006. Dois anos depois, os tributos ao centenário do autor – incluindo Rosário. Após muito tempo com nome atrelado ao álbum dedicado a Guimarães Rosa, o grupo está às voltas com um outro projeto, desta vez, relacionado ao universo dos mitos, dos encantados – tendo como referência o estudo sobre cultura brasileira do historiador e folclorista Câmara Cascudo. “Ele fez levantamento completo do nosso folclore”, explica Xavier.
Meio bicho, meio homem
Nas músicas e narrativas, o grupo Nhambuzim lida com um universo mágico e sombrio, de figuras que já fazem parte do nosso imaginário, como Curumim [curupira] e Lobisomem, e outros menos populares, como Quibungo, que é metade homem, metade bicho. “Estamos tratando de criaturas que também estão em fase de extinção, já que elas vivem onde existem as florestas”, diz o pianista.
É justamente esse material renovado que conduz o espetáculo Mar de Dentro, no CCSP. “Não estamos abandonando Guimarães Rosa, ao apresentando um novo trabalho”, diz. Agora, já com o aporte de leis de incentivo, eles estão em busca de recursos para gravar um álbum com esse repertório, que poderá ser ouvido hoje, em primeira mão.
Divirta-se
Banda de Pífanos de Caruaru e Grupo Nhambuzim. Shows: hoje, às 19h25 (Pífanos) e às 20h (Nhambuzim) CCSP: Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso. Sala Adoniram Barbosa. 3397-4002. Grátis.
